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Coluna Ocasionais by Márcio Correia | Sprezzatura – A arte de fazer algo difícil parecer fácil

Existe uma forma de elegância que não está no preço da roupa, na marca do relógio ou no endereço residencial. Ela aparece na maneira como um homem entra em uma sala, cumprimenta alguém, reage a uma provocação, enfrenta um problema ou simplesmente permanece em silêncio. É uma elegância menos visível e, justamente por isso, mais poderosa. Os italianos têm uma palavra para ajudar a defini-la: sprezzatura.

 

O termo surgiu no Renascimento, pelas mãos de Baldassare Castiglione, em Il Cortegiano, publicado em 1528. Castiglione descrevia o ideal de um homem da corte: culto, habilidoso, educado, preparado para a vida social e política. Mas havia uma condição essencial: suas qualidades deveriam parecer naturais. Era preciso fazer o difícil parecer fácil. O homem verdadeiramente sofisticado não deveria exibir o esforço necessário para adquirir suas habilidades. O treinamento estava lá, o estudo estava lá, a disciplina estava lá, mas o resultado aparecia com leveza.

Cinco séculos depois, talvez essa ideia tenha se tornado ainda mais necessária. Vivemos em uma época em que quase tudo precisa ser mostrado. A conquista profissional vira postagem, a viagem vira álbum, o restaurante vira cenário, o relógio precisa mostrar a marca, o carro precisa revelar status. Até a simplicidade pode ser cuidadosamente produzida para parecer espontânea. Nesse mundo de excesso de exposição, não precisar mostrar tudo se tornou uma forma de luxo.

A verdadeira sofisticação é silenciosa

O homem inseguro frequentemente precisa anunciar suas qualidades. Conta quanto ganhou, fala sobre quem conhece, mostra onde esteve, faz questão de deixar claro que entende mais do que os outros. O homem seguro pode fazer o contrário. Ele sabe — e não precisa dizer o tempo inteiro que sabe. Trabalha bem sem transformar cada tarefa em espetáculo, conhece pessoas importantes sem usar seus nomes como troféus e possui coisas boas sem transformar preço em argumento. A sprezzatura, nesse sentido, é uma espécie de desapego da necessidade de impressionar.

Existe uma ironia bonita no conceito: para parecer natural, é preciso trabalhar muito. O músico que toca com facilidade passou anos estudando; o atleta que parece se movimentar sem esforço treinou milhares de horas; o chef que prepara um prato aparentemente simples conhece profundamente técnicas, ingredientes e tempos de cocção. A facilidade é o resultado final de uma longa preparação. Sprezzatura não é preguiça. É maestria. E talvez esse seja um ensinamento importante para os homens de hoje: não há nada de errado em trabalhar duro. O problema está em transformar o próprio esforço em espetáculo permanente. Prepare-se, estude, treine, melhore e, depois, deixe o resultado falar.

Vestir-se bem sem parecer fantasiado

Foi na moda que a sprezzatura ganhou uma de suas interpretações mais conhecidas. A estética masculina italiana tornou célebre a combinação entre alfaiataria e informalidade: uma camisa impecável com as mangas dobradas, um blazer com jeans, um tênis clássico com calça de alfaiataria ou uma gravata ligeiramente desalinhada. O objetivo não é parecer desleixado, mas despreocupadamente elegante.

Gianni Agnelli, um dos grandes símbolos desse comportamento, transformou pequenas transgressões às regras clássicas da moda em sua assinatura pessoal. Seu famoso relógio usado sobre o punho da camisa tornou-se quase uma declaração de independência. A mensagem era mais importante que o acessório: conhecer as regras é diferente de ser escravo delas. Mas existe uma diferença fundamental entre estilo e fantasia. Quando um homem veste determinada roupa apenas para parecer alguém que não é, a roupa o domina. Quando a roupa expressa quem ele é, acontece o contrário: o estilo passa a servi-lo.

A elegância de saber ouvir

Talvez seja nas relações humanas que a sprezzatura alcance sua forma mais bonita. Um homem realmente seguro não precisa transformar toda conversa em competição. Ele não interrompe para mostrar que sabe mais, não transforma conhecimento em arma, não precisa corrigir cada detalhe. Ele sabe ouvir e sabe fazer perguntas. Existe uma espécie de inteligência sofisticada em permitir que outra pessoa seja interessante. Em vez de perguntar “como vou impressionar essa pessoa?”, talvez seja melhor perguntar: “o que posso aprender com ela?”

Essa segurança também aparece diante das dificuldades. Um problema acontece, um prazo estoura, uma negociação dá errado ou alguém provoca. O homem inseguro procura imediatamente um culpado. O homem maduro procura uma solução. Isso não significa não sentir medo, raiva ou frustração, mas não entregar o volante dessas emoções. Autocontrole é uma das formas mais sofisticadas de poder.

E talvez nada revele mais a segurança de um homem do que sua capacidade de dizer: “Eu errei.” Sem discurso, sem justificativa interminável, sem colocar a culpa em outra pessoa. Homens seguros não são homens que nunca erram; são homens que não precisam proteger uma imagem de perfeição. Eles podem mudar, aprender, pedir desculpas, voltar atrás e reconhecer que outra pessoa tinha razão. Isso não diminui sua autoridade. Aumenta.

Sprezzatura e masculinidade

Talvez seja hora de abandonar algumas ideias antigas sobre o que significa ser homem. Ser forte não é ser agressivo. Ser firme não é ser grosseiro. Ser independente não significa não precisar de ninguém. Ser confiante não significa achar que é melhor do que os outros. Ser emocionalmente equilibrado não significa não ter emoções. E ser elegante não significa estar impecavelmente vestido o tempo inteiro.

A elegância masculina começa no comportamento. Está na forma como um homem trata quem o serve, na maneira como fala com quem discorda dele, na forma como trata uma mulher quando sabe que ela não lhe deve nada, na maneira como lida com o próprio poder e reage quando perde. Está também na maneira como trata alguém que não pode lhe oferecer absolutamente nada.

O perigo da falsa sprezzatura

Existe, entretanto, uma armadilha: transformar a sprezzatura em personagem. Passar duas horas arrumando o cabelo para parecer que não arrumou, comprar uma roupa caríssima para parecer que não se importa com moda, planejar cuidadosamente uma fotografia para parecer espontânea ou fingir indiferença para parecer interessante. Tudo isso é o oposto do conceito original. É apenas outra forma de afetação.

Talvez o verdadeiro luxo contemporâneo seja outro: ter tempo, educação, repertório, bons modos e saber conversar. Saber ficar em silêncio. Ter amigos verdadeiros. Conseguir desligar o celular durante um jantar. Viajar sem precisar provar que viajou. Comer bem sem fotografar cada prato. Trabalhar muito sem transformar a vida em uma competição. Ter sucesso sem precisar humilhar quem não teve o mesmo. E conseguir dormir em paz com o homem que se tornou.

Porque existe uma diferença enorme entre parecer admirável e ser admirável. A primeira depende dos outros. A segunda depende do próprio homem.

No século XVI, sprezzatura era a arte de fazer o difícil parecer fácil. No século XXI, talvez possamos ampliar seu significado: é a arte de construir muito por dentro e precisar mostrar pouco por fora. E talvez seja justamente aí que comece uma forma mais interessante, mais madura e mais elegante de ser homem.

 

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Márcio Correia

Graduado em Psicologia e Inglês, pela UMHB, nos EUA, e com cursos de aperfeiçoamento em gerenciamento e marketing feitos ao longo de sua vida, Márcio é um entusiasta e adora gente, cultura, festas e novidades. Já morou nos EUA por muitos anos e sempre que pode encontra novos lugares para conhecer. Acumula boas experiências nas áreas da música, moda, design, arquitetura e organização de eventos. Já foi colunista em um jornal local e atualmente organiza eventos sociais e empresariais, além de ser professor de inglês e assinar a coluna OCASIONAIS para o Portal ConceituAdo

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