Há alguns dias, em uma “press screening”, no Centerplex Via Sul Shopping, o Portal Conceituado foi convidado a assistir ao filme brasileiro Feito Pipa, escolhido para representar o Brasil na disputa por uma indicação ao Oscar. A obra conduz o espectador por temas íntimos e universais: depressão, Alzheimer, solidão, amizade, amor e as muitos infortúnios — e delicadezas — da existência humana.
Márcio Correia
Com lançamento nacional agedado para o dia 05 de novembro, listamos aqui algumas considerações sobre o que vimos – e sentimos com relação a esta obra de extremo refinamento, poesia e significado.
Gugu é um menino de 12 anos que gosta de futebol e que vive com a avó Dilma. Ela passa a enfrentar o Alzheimer, e assim surge a possibilidade de Gugu morar com o pai, Batista, com quem não tem muita proximidade. Com um roteiro magnético e inteligente, o filme não tem pressa em revelar sua beleza. Aos poucos, passado, presente e futuro se entrelaçam, assim como as gerações, o masculino e o feminino, o divino e o secular. Os contrastes estão por toda parte: na aridez da paisagem e na força dos afetos; na casa silenciosa e na sociabilidade do bar, da dança, dos encontros. É nesse movimento que a história insiste em nos lembra da importância dos amigos como rede de apoio e amparo psicológico.
Quando as aguás baixam
A trama também encontra no Nordeste do Brasil uma presença marcante. A arquitetura e a memória da cidade não servem apenas de cenário: participam da narrativa. Ao longo do filme, é como se a cidade antiga se revelasse quando as águas baixam — imagem que conversa com a própria história, cujas verdades vão surgindo no tempo possível de cada personagem.
Mas por que Pipa?
Uma pipa (também conhecida como arraia, raia, papagaio ou pandorga dependendo da região do país) é um brinquedo voador feito de uma estrutura leve de varetas (é muito comum o uso da tala da folha do coqueiro, tirada diretamente do pé de coco, raspada e afinada para ficar leve e flexível) coberta por papel de seda ou plástico. Ela voa graças ao equilíbrio entre a força do vento contra a superfície e a tração da linha segurada por quem brinca. A palavra evoca algo que dança no vento, suspenso entre o chão e o céu — uma imagem que combina com os personagens, atravessados por lembranças, perdas e desejos.
Vulnerabilidade, esperança e otimismo
A trilha, com músicas dos anos 1970 e 1980, também abre caminhos para a memória, os sentimentos e a esperança de dias melhores. “Time After Time”, de 1983, surge como um eco ao longo do filme, ensinando que mesmo diante das mudanças e vulnerabilidades, o amor incondicional, a lealdade, e o apoio podem amparar e curar feridas. Já a canção “A Noite Vai Chegar”, composta por Paulinho Camargo e gravada por Lady Zu em 1978, transforma dias e noites vividas pelas personagens em cenário de saudade, reflexão e esperança. No verso “A noite vai chegar, meu pensamento está tão longe”, aparece o desejo de reencontrar um amor distante e a expectativa de que a espera termine em um encontro, até mesmo de si. Com leveza, a música traduz a vulnerabilidade de quem sente falta de alguém, ou alguma coisa, sem perder o otimismo.
Acolher e respeitar o tempo do outro
Há cenas de grande força emocional. À beira do lago, um amor de pai ferido se deixa ver. Em outra imagem, a rede acolhe e consola: oferece descanso, aconchego e a possibilidade de simplesmente permanecer. São gestos discretos, mas carregados de significado. O filme parece dizer que, às vezes, é preciso permitir a aproximação — e que acolher também é respeitar o tempo do outro.
Ouvindo o coração e falando de tudo
Efeito Pipa olha de frente para aquilo que costuma ser abafado, mas tambem deixa claro que o silêncio precisa ser quebrado, e o filme se arrisca a falar de tudo: das fragilidades, das ausências, das relações e das contradições humanas, como é o caso ao abordar a homossexualidade sem transformá-la em espetáculo, oferecendo o espaço para que diferentes experiências sejam vistas, reconhecidas e assimiladas, por exemplo.
Denso, reflexivo, inteligente e refinado o longa deixa uma certeza delicada: há tempo para tudo debaixo dos céus. É preciso dar tempo ao tempo, respeitar o tempo — inclusive o alheio — e confiar que as coisas podem se mostrar pouco a pouco. Porque, mesmo depois da dor, o amor continua.
Ficha Técnica Direção: Allan Deberton Roteiro: André Araújo Fotografia: Luciana Baseggio, ABC, DAFB / Daniel Donato Montagem: Mariana Nunes Gomes Música: João Victor Barroso Supervisor de Edição de Som: Miriam Biderman, ABC Desenho de Som: Ricardo Reis, ABC Mixador: Toco Cerqueira Direção de Arte: Dayse Barreto Figurino: Gabriella Marra Maquiagem: Natie Cortez Casting: Luciana Vieira Produção: Karen Castanho, Bianca Villar, Fernando Fraiha, Allan Deberton Produção executiva: Marcelo Pinheiro, Fred Burle, Maurício Macêdo Produção Associada: Lázaro Ramos, João Macedo, Ariadne Mazzetti Elenco: Yuri Gomes (Gugu), Lázaro Ramos (Batista), Teca Pereira (Dilma), Georgina Castro, Carlos Francisco, e apresentando as crianças Luan Vasconcelos, Beatriz Carwile, Nathyel Martins, Manuela Paulino, Pablo Vinícios e Enzo Uejo. Título Internacional: Gugu’s World Título Original: Feito Pipa Ano: 2026 País: Brasil Gênero: Drama Duração: 93 min
Graduado em Psicologia e Inglês, pela UMHB, nos EUA, e com cursos de aperfeiçoamento em gerenciamento e marketing feitos ao longo de sua vida, Márcio é um entusiasta e adora gente, cultura, festas e novidades. Já morou nos EUA por muitos anos e sempre que pode encontra novos lugares para conhecer. Acumula boas experiências nas áreas da música, moda, design, arquitetura e organização de eventos. Já foi colunista em um jornal local e atualmente organiza eventos sociais e empresariais, além de ser professor de inglês e assinar a coluna OCASIONAIS para o Portal ConceituAdo