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Coluna Ocasionais by Márcio Correia – A família Kleinberg e a era da lagosta no Ceará

A família Kleinberg tem uma ligação importante com a história empresarial da lagosta no Ceará, especialmente por meio da IPESCA – Indústria de Frio e Pesca S.A., uma das empresas que participaram da estruturação da cadeia de beneficiamento e exportação do crustáceo no Estado. A história começa com Robert Kleinberg, citado em trabalhos acadêmicos da Universidade Federal do Ceará como fundador da IPESCA. A empresa foi instalada em Fortaleza e, a partir de 1968, passou a atuar no beneficiamento de produtos pesqueiros, incluindo camarão, peixe e, principalmente, lagosta destinada aos mercados nacional e internacional. A localização da empresa é significativa: a IPESCA funcionava na Avenida Almirante Barroso, na região da Praia de Iracema, área que naquele período estava intimamente ligada à atividade portuária, ao comércio e à transformação de Fortaleza em importante polo pesqueiro. Com o passar das décadas, a família Kleinberg tornou-se associada à indústria cearense da lagosta. Mark Robert Kleinberg aparece como presidente da IPESCA em registros empresariais e em documentos relacionados à atividade pesqueira. Há um dado particularmente interessante: uma pesquisa acadêmica sobre a IPESCA registra que a empresa chegou a concentrar sua produção na exportação de lagosta inteira e de caudas congeladas. Durante o período de defeso, a estrutura industrial era utilizada também para o processamento de outros pescados.

 

Quando a lagosta virou um grande negócio

A importância dos Kleinberg não deve ser entendida como se a família tivesse “inventado” a pesca da lagosta no Ceará. A pesca era realizada pelos pescadores cearenses antes da industrialização, e o conhecimento sobre o mar, os barcos e os métodos de captura pertenciam sobretudo às comunidades pesqueiras. O papel de empresas como a IPESCA foi outro: transformar a lagosta em uma mercadoria industrial, padronizada, congelada e adequada ao comércio internacional. Esse processo foi fundamental para que a lagosta cearense deixasse de ser apenas um produto da pesca artesanal e passasse a ocupar um lugar de destaque na economia de exportação do Estado. Uma fonte jornalística de 2007, por exemplo, registra que o Ceará era considerado o Estado onde a pesca da lagosta havia começado e que, naquele momento, Mark Kleinberg, então diretor-presidente da IPESCA, afirmava que a crise de escassez havia se agravado durante aquela década.

Os irmãos Kleinberg: Carlos, Mark e Ludwin

IPESCA: uma empresa histórica

Existe ainda um detalhe importante para sua pesquisa: não estamos falando apenas de uma pequena empresa familiar recente. A Indústria de Frio e Pesca S.A. – IPESCA aparece em registros oficiais com abertura em 27 de junho de 1968. Sua atividade incluía a fabricação e conservação de peixes, crustáceos e moluscos. Posteriormente, surgiu também a IPESCA Indústria de Pesca Ltda., ligada a Mark Robert Kleinberg e Ludwig Pinto Kleinberg, com atividades que incluíam expressamente a pesca de crustáceos e moluscos em água salgada. Isso mostra que a presença da família não se restringiu ao processamento industrial: houve também atuação empresarial diretamente relacionada à atividade pesqueira.

E há uma história ainda maior por trás disso

A trajetória dos Kleinberg ajuda a contar uma transformação muito maior do Ceará:

jangada → pescador → desembarque → indústria → congelamento → exportação → mercado internacional.

 

Foi essa cadeia que ajudou a transformar a lagosta em um dos símbolos econômicos e gastronômicos do litoral cearense. E existe um aspecto que pode deixar seu artigo ainda mais interessante: a história da família Kleinberg permite contar a passagem da “lagosta dos pescadores” para a “lagosta de exportação”, incluindo a criação da infraestrutura industrial, a relação com os pescadores, o mercado americano, a valorização do crustáceo e, posteriormente, a crise provocada pela sobrepesca e pela captura de exemplares abaixo do tamanho permitido. Inclusive, em documentos do próprio IBAMA, Mark Kleinberg aparece participando, em 2006, de discussões internacionais sobre medidas de ordenamento da pesca da lagosta e sobre tamanho mínimo para comercialização.

O patriarca da família, Roberto Kleinberg era formado em Engenharia Mecânica antes de chegar no Brasil. Especializado em Refrigeração. Atuou antes de chegar no Ceara em São Luiz, onde implantou o primeiro frigorifico industrial. Chegando no Ceara, percebeu que a pesca de lagosta era ainda extremamente artesanal e que, assim, poderia ser modernizado. Os pescadores na época não conheciam uso de talha hidráulica – um equipamento de elevação vertical projetada para mover cargas pesadas utilizando a força gerada por pressão de óleo em um pistão ou cilindro hidráulico, em vez de usar motores elétricos ou apenas força manual de correntes ou braçal – para puxar as fileiras de manzuás. Depois disso, foi o primeiro empresário a introduzir congelamento a bordo assim permitindo expandir viagens de poucas semanas para até 60 dias.

 

Pinceladas na linha do tempo da história da lagosta no Ceará

Anos 1950 — Antes da indústria, o saber dos pescadores

A pesca comercial da lagosta ganhou impulso no Ceará a partir de 1955. Antes da expansão das exportações, o crustáceo era consumido regionalmente e também utilizado como isca na pesca de peixes. Jangadas, botes e o conhecimento das comunidades costeiras constituíam a base dessa atividade.

Superar desafios é a história da indústria | FIESC

1968–1969 — A criação da IPESCA

A Indústria de Frio e Pesca S.A. (IPESCA) foi fundada pelo polonês Robert Kleinberg, conforme pesquisa acadêmica da Universidade Federal do Ceará. Os registros empresariais indicam abertura em 27 de junho de 1968, enquanto um estudo sobre seu funcionamento registra atividade desde 1969. A empresa funcionava na Avenida Almirante Barroso, na Praia de Iracema, em Fortaleza, e beneficiava peixes, camarões e lagostas para os mercados nacional e internacional.

Fresha Fisheries, Interior | Record | DigitalNZ
Década de 1970 — Fortaleza ganha projeção internacional

Em 1970, o porto de Fortaleza exportou 2.036 toneladas de caudas congeladas de lagosta, equivalentes a 72,9% do total brasileiro. A industrialização e o congelamento permitiram atender mercados distantes e ampliaram o valor comercial do produto. A IPESCA integrou esse universo empresarial, embora os dados disponíveis não permitam atribuir à família Kleinberg, isoladamente, o protagonismo de toda a expansão.

Anos 1980 e 1990 — Expansão, modernização e pressão sobre os estoques

O setor pesqueiro cearense reunia empresas de captura, beneficiamento e exportação. A intensificação da atividade ampliou a importância econômica da lagosta, mas também aumentou a pressão sobre os estoques naturais. A IPESCA implantou, em 1993, procedimentos de controle de qualidade e segurança alimentar, segundo estudo acadêmico sobre a indústria.

Lobster, Spiny - South Atlantic Fishery Management Council
Anos 2000 — A crise da pesca

Em fevereiro de 2007, uma reportagem baseada em informações do Ibama registrou uma queda da produção brasileira de aproximadamente 11 mil toneladas, em 1995, para 6 mil toneladas, em 2006. A sobrepesca, a captura de indivíduos jovens e a expansão da atividade foram apontadas entre as causas da crise. Na ocasião, Mark Kleinberg, então diretor-presidente da IPESCA, comentou a escassez e as dificuldades enfrentadas pelo setor.

Anos 2000 em diante — A continuidade empresarial

Registros empresariais identificam Mark Robert Kleinberg e Ludwig Pinto Kleinberg como sócios-administradores de uma sociedade limitada chamada IPESCA Indústria de Pesca Ltda., constituída em 2002, com atividades de beneficiamento e pesca de crustáceos. Essa sociedade deve ser distinguida da antiga Indústria de Frio e Pesca S.A., ainda que ambas estejam ligadas ao nome IPESCA.

Fontes: IBAMA, Casa dos Dados, Repositório UFC, Biblioteca INCAPER, Bahia.com.br, www.ce.gov.br e o próprio Mark Kleinberg

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Márcio Correia

Graduado em Psicologia e Inglês, pela UMHB, nos EUA, e com cursos de aperfeiçoamento em gerenciamento e marketing feitos ao longo de sua vida, Márcio é um entusiasta e adora gente, cultura, festas e novidades. Já morou nos EUA por muitos anos e sempre que pode encontra novos lugares para conhecer. Acumula boas experiências nas áreas da música, moda, design, arquitetura e organização de eventos. Já foi colunista em um jornal local e atualmente organiza eventos sociais e empresariais, além de ser professor de inglês e assinar a coluna OCASIONAIS para o Portal ConceituAdo

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