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A Lagosta do Ceará – 15 informações sobre um ícone brasileiro

Há ingredientes que alimentam. Outros contam histórias. A lagosta cearense pertence à esta segunda categoria. Antes de chegar à mesa, ela passa pelo mar, pelas mãos de pescadores, pelos portos, pelas indústrias, pelo comércio internacional e pela imaginação de chefs. Seu percurso atravessa fronteiras e conecta um trecho do litoral brasileiro a restaurantes e consumidores do mundo inteiro. Conhecer a lagosta do Ceará é, de certa forma, conhecer o próprio Brasil: exuberante, contraditório, inventivo, trabalhador e profundamente ligado à natureza.

 

I. UM CRUSTÁCEO, NÃO UM PEIXE

Parece óbvio, mas vale começar pelo princípio. A lagosta é um crustáceo, parente do camarão, do caranguejo e do siri. Seu corpo é protegido por um exoesqueleto e seu crescimento exige um processo extraordinário: abandonar a própria carapaça e construir outra maior. Na natureza, crescer significa literalmente deixar para trás uma versão de si mesma.

II. A LAGOSTA SEM GRANDES GARRAS

A imagem clássica da lagosta, com duas enormes pinças, não corresponde às principais espécies comerciais encontradas no Ceará. A lagosta-vermelha (Panulirus argus) e a lagosta-verde (Panulirus laevicauda) são lagostas espinhosas. Não têm aquelas grandes garras da lagosta-americana ou europeia. Seu desenho é outro: corpo robusto, espinhos, cauda poderosa e longas antenas que funcionam como sofisticados órgãos sensoriais.

III. UM ANIMAL QUE TROCA DE ARMADURA

Para crescer, a lagosta precisa fazer a muda, ou ecdise. Ela abandona o antigo exoesqueleto e, por algum tempo, fica protegida apenas por uma nova carapaça ainda mole. É um dos momentos mais delicados de sua existência. A natureza, muitas vezes, exige coragem para crescer.

IV. UMA PEQUENA LIÇÃO DE REGENERAÇÃO

Lagostas possuem capacidade de regenerar determinadas estruturas do corpo ao longo de sucessivas mudas. Não é exatamente uma superpotência — mas é uma das muitas soluções engenhosas desenvolvidas pela vida marinha para sobreviver.

V. O ANO EM QUE TUDO MUDOU

A exploração comercial da lagosta no Brasil ganhou força em 1955. A partir daí, o Nordeste entrou em uma nova fase de sua história pesqueira. O Ceará rapidamente assumiu protagonismo, transformando um recurso natural em uma atividade econômica de grande escala. O mar deixava de ser apenas território de subsistência e passava a ser também território de negócios.

VI. O CEARÁ E O MUNDO

Durante décadas, o Ceará esteve entre os grandes centros brasileiros de produção, beneficiamento e exportação de lagosta. O crustáceo passou a atravessar oceanos e a aparecer em mercados internacionais, tornando-se uma importante fonte de divisas para o Estado. Há algo de extraordinário nisso: um animal capturado diante de pequenas comunidades costeiras podia terminar sua jornada a milhares de quilômetros dali, em uma mesa sofisticada.

VII. O “OURO DO MAR”

Não foi por acaso que a lagosta recebeu esse apelido. Seu alto valor comercial criou uma cadeia que envolvia pescadores, embarcações, empresas pesqueiras, unidades de beneficiamento, armazenamento, transporte, comércio e exportação. A riqueza não estava apenas na lagosta. Estava em tudo aquilo que se desenvolveu ao redor dela.

VIII. MADE IN CEARÁ

Existe uma ironia nessa história da lagosta. Durante muito tempo, a lagosta produzida no Ceará foi muito mais direcionada ao mercado internacional do que ao consumo doméstico. Antes de se tornar uma estrela das mesas do litoral cearense, ela já havia conquistado consumidores estrangeiros. O Ceará produzia para o mundo. E o mundo descobria o sabor do Ceará.

IX. A INDÚSTRIA POR TRÁS DA IGUARIA

A história da lagosta também é uma história de industrialização. Empresas como a IPESCA – Indústria de Frio e Pesca S.A. participaram do processo de beneficiamento, congelamento e comercialização do pescado, ajudando a construir a infraestrutura necessária para que a lagosta pudesse alcançar mercados distantes. A EMPESCA, por sua vez, aparece nos registros históricos ligada à pesca, às construções navais e à exportação. Essas empresas e outras que participaram da cadeia ajudaram a transformar o pescado recém-retirado do mar em um produto capaz de atravessar fronteiras.

X. A FAMÍLIA POR TRÁS DA HISTÓRIA

A família Kleinberg também aparece nos registros relacionados à indústria pesqueira cearense, especialmente à IPESCA. É importante, porém, separar história de lenda: não há base documental suficiente para dizer que os Kleinberg inventaram o consumo de lagosta no Ceará. Seu papel está relacionado principalmente ao processo de industrialização, beneficiamento e comercialização da pescaA pesca era realizada pelos pescadores cearenses antes da industrialização, e o conhecimento sobre o mar, os pesqueiros e os métodos de captura pertencia sobretudo às comunidades pesqueiras. O papel de empresas como a IPESCA foi transformar a lagosta em uma mercadoria industrial, padronizada, congelada e adequada ao comércio internacional.

XI. A “JAPONESA” QUE É TOTALMENTE BRASILEIRA

Poucos nomes são tão curiosos quanto “lagosta japonesa”. No Brasil, o termo é usado popularmente para algumas espécies do gênero Scyllarides, conhecidas também como lagosta-sapateira ou lagosta-sapata. Ou seja: em determinados contextos brasileiros, a “lagosta japonesa” é japonesa apenas no nome.

XII. O JAPÃO E SUA LAGOSTA

Existe, sim, uma verdadeira lagosta japonesa: a Panulirus japonicus, conhecida no Japão como Ise-ebi. Ela é outra espécie, embora pertença ao mesmo gênero das lagostas-vermelha e verde encontradas no Ceará. A confusão dos nomes revela algo interessante sobre a cultura: palavras também viajam. E, quando chegam a novos lugares, podem adquirir novos significados.

XIII. O QUE VOCÊ VÊ NO PRATO É MAIS DO QUE PARECE

Uma lagosta grelhada pode parecer simples. Mas aquela simplicidade esconde uma cadeia complexa. Antes do prato, houve mar, barco, pescador, desembarque, seleção, conservação, transporte, beneficiamento, comércio e cozinha. Por isso, gastronomia também é economia. E um prato também pode ser um documento sobre um território.

XIV. A LAGOSTA TEM LEI

Nem toda lagosta pode ser capturada, em qualquer época, de qualquer maneira. A atividade é regulamentada por regras que envolvem período de pesca, defeso, tamanho mínimo, equipamentos autorizados, controle e monitoramento. A lógica é universal: um recurso natural precisa de tempo para se reproduzir e se renovar. O verdadeiro luxo não é comer lagosta hoje. É garantir que ainda exista lagosta amanhã.

Espécie de Lagosta                                          Cauda                                   Cefalotórax
Lagosta-Vermelha (Panulirus argus)                  Mínimo de 13cm                   Mínimo de 7,5 cm
Lagosta-Verde (Panulirus laevicauda)                Mínimo de 11 cm                  Mínimo de 6,5 cm

XV. UMA PALAVRA PARA SUSTENTAR UMA IDEIA: BRASILIDADE

Talvez seja essa a maior história escondida na lagosta. Ela reúne natureza e trabalho. Ciência e conhecimento tradicional. Pesca artesanal e indústria. Economia local e comércio internacional. Turismo e gastronomia. Memória e inovação. Nasce no mar brasileiro. É retirada por mãos brasileiras. É transformada em produto. Viaja pelo mundo. E retorna à mesa como experiência, sabor e identidade. A lagosta é, portanto, muito mais do que um ingrediente. É território que se come.

UMA ÚLTIMA ESPIADINHA

Durante décadas, o mundo conheceu a lagosta cearense antes que muitos brasileiros conhecessem sua história, ou até mesmo o seu gosto. Talvez esteja aí uma das maiores ironias — e uma das mais bonitas — da nossa brasilidade: o Ceará não precisou importar um ingrediente sofisticado; ele já tinha um dos tesouros mais valiosos do mundo debaixo d’água. O desafio sempre foi aprender a contar a história de quem o retirou do mar, de onde ele veio, como chegou à mesa e por que merece continuar existindo. Porque quando conhecemos a história de um alimento, deixamos de enxergá-lo apenas como comida. Passamos a enxergar um povo, um território e uma cultura. E talvez seja isso que a lagosta cearense tenha feito de melhor: levou um pedaço do Brasil para o mundo — e tem trazido o mundo de volta para o Ceará.

 

 

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Márcio Correia

Graduado em Psicologia e Inglês, pela UMHB, nos EUA, e com cursos de aperfeiçoamento em gerenciamento e marketing feitos ao longo de sua vida, Márcio é um entusiasta e adora gente, cultura, festas e novidades. Já morou nos EUA por muitos anos e sempre que pode encontra novos lugares para conhecer. Acumula boas experiências nas áreas da música, moda, design, arquitetura e organização de eventos. Já foi colunista em um jornal local e atualmente organiza eventos sociais e empresariais, além de ser professor de inglês e assinar a coluna OCASIONAIS para o Portal ConceituAdo

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