Em um tempo em que o sucesso costuma ser medido por visibilidade, velocidade e números, Hanry Sindeaux caminha na contramão. Sua trajetória é feita de camadas, como uma receita bem construída: estudo, fé, família, coletividade e trabalho árduo. Chef de cozinha por escolha consciente, educador por essência e pensador por natureza, Hanry acredita que cozinhar vai muito além do prato — é uma forma de organizar ideias, formar pessoas e deixar marcas silenciosas, porém profundas, na vida de quem cruza seu caminho. Entre formações improváveis, uma fé vivida com constância e um compromisso quase artesanal com o fazer diário, ele construiu uma identidade sólida, ancorada em valores que não se negociam. Nesta entrevista, Hanry fala sobre origem, vocação, amor, medo, espiritualidade e futuro com a serenidade de quem entende que a verdadeira grandeza está menos no brilho e mais na consistência.
Quem é Hanry Sindeaux?
Sou um ser coletivo. Um homem de grupo, que acredita profundamente na força do trabalho compartilhado e na formação de pessoas. Nada do que construí até hoje foi feito sozinho — e isso é, para mim, um valor inegociável.
Qual é a sua formação acadêmica e profissional?
Minha trajetória acadêmica é diversa e, para muitos, até improvável. Sou formado em Odontologia pela UFC, cozinheiro profissional pelo Senac, padeiro profissional pelo Senai, consultor em Gastronomia também pelo Senac e, talvez minha maior ousadia, mestre em Economia pela UFC. Tudo isso se conecta mais do que parece quando se pensa em pessoas, processos e sociedade.

Hoje, como você se define profissionalmente?
Atualmente, atuo como chef de cozinha da Cantina Tornatore, um espaço que exige dedicação extrema, disciplina e muito trabalho diário.
O que você gosta de fazer quando não está na cozinha?
Há 22 anos crio cães para exposição. É um passatempo que exige paciência, cuidado, observação e respeito aos ciclos — curiosamente, muito parecido com cozinhar.

Como você define suas amizades?
Tenho muitos amigos, graças a Deus. Preciso de mais de uma mão para enumerá-los. Valorizo relações construídas no tempo, com presença e lealdade.

E a família, que lugar ocupa na sua vida?
A família é a força motriz do meu trabalho, minha maior vaidade e a minha obra perfeita. Tudo o que faço passa, direta ou indiretamente, por ela.

Qual é o papel da fé no seu cotidiano?
Sou católico, apostólico e praticante. Frequentei a Igreja da Glória, na Cidade dos Funcionários, por mais de 35 anos. Foi lá que conheci minha esposa, me casei, batizei meus filhos e sigo frequentando todos os fins de semana. É um pilar silencioso, mas constante.
O que representa a gastronomia na sua vida?
A gastronomia é o meu projeto de vida. Pensar comida e cozinhar pensamentos. É onde razão, emoção, técnica e afeto se encontram.

Você também tem uma relação forte com o ensino. O que pensa sobre isso?
O ser humano é um animal que, culturalmente, sempre trabalhou em grupo. Os melhores resultados que alcançamos enquanto sociedade são, sem dúvida, coletivos. Ensinar é compartilhar esse entendimento.
Como você enxerga o mundo hoje?
O mundo é a prova fundamental de que Deus existe e de como Ele é maravilhoso. Mesmo em meio às contradições, ele carrega uma beleza incontestável.
Falando em beleza, qual o seu significado para você?
A beleza é um ingrediente comum em tudo e em todos, mas não é suficiente. Na cozinha, ela costuma ser apenas a finalização. A sustança, o que realmente alimenta, como na vida de maneira geral, vem de outro lugar.

E a saúde?
A saúde merece cuidados constantes. Sem ela, nada se sustenta. A vida precisa ser vivida em constante agitação. Movimento é sinal de existência.

Como você define o amor na sua vida?
Tenho uma mulher linda, dois filhos maravilhosos, uma mãe que viveu para os filhos e um pai que me deu um sólido alicerce de princípios. Isso é amor em sua forma mais concreta. Meu maior sonho é ver meus filhos realizados, assim como eu sou.
O que é poder para você?
Só existe um poder verdadeiro: o poder de Deus. O resto são ilusões – e elas passam!
Você tem algum medo?
Tenho medo de não fazer diferença na vida de ninguém.
E o futuro, como você o imagina?
Minha única certeza é que estarei com minha mulher e com meus filhos. Todo o resto é construção diária.

Fale um pouco sobre a Cantina Tornatore.
É um local de muito, mas muito trabalho. Um espaço onde a dedicação precisa ser total, todos os dias. Um lugar lindo, envolvente, organizado – facinante mesmo! Existe há pouco mais de um ano. Nossas portas estão abertas para o público!

O que representa sucesso para você?
Um feedback positivo. Saber que o que foi proposto e executado tocou alguém de alguma forma.
Gratidão: a quem e por quê?
À minha esposa e companheira, e a Deus, por me dar forças para chegar até aqui.
O que você gostaria que as pessoas assimilassem desta entrevista?
Que saibam que sou, antes de tudo, um filho de Deus, marido da Roberta, pai da Júlia e do João. Um cozinheiro apaixonado e um homem de princípios.
Existe uma música marcante na sua vida?
A música sempre fez parte do meu processo criativo e dos meus momentos de descanso. Mas “Faz Parte do Meu Show”, do Cazuza, é especial. Foi a trilha sonora do meu casamento e faz parte da minha história com minha esposa.



